Era noite de sexta-feira. Chuva, nuvens, cinza. O moço dos olhos cor-de-carvão tinha os mesmos fixos na folha de papel rabiscada sobre o chão. Quem visse a cena imploraria aos deuses para que não permitisse a presença de qualquer combustível próximo àqueles olhos. Acredite, os olhos realmente tinham cor-de-carvão.
Mas não havia mais ninguém ali além do moço, dos olhos, da folha.
E a ausência de outro alguém era justamente a causa de tudo aquilo.
A folha, apesar de ser o de aparência mais insignificante, era o que prendia o moço ali. Era a lembrança do alguém ausente. Uma espécie de rascunho, talvez. Era a explicação - mesmo que não o motivo. O conteúdo da folha não era mais importante que sua existência. Ela estava lá porque o alguém não estava.
O moço não queria que a folha estivesse presente, muito menos queria ele estar, mas ela era a única coisa que ele tinha, e ele não era capaz de deixá-la.
Passaram-se horas, dias, semanas. O moço ainda estava lá. Ainda a focar a folha rabiscada. Por várias vezes algumas lágrimas vieram lhe fazer companhia. Durante as primeiras visitas ele se manteve resistente, orgulhoso e rude. Mal as lágrimas chegavam, ele as ia empurrando, expulsando-as. Depois de algumas semanas, ele começou a aceitar a companhia. Aliás, acho que, na verdade, ele não tinha mais forças para expulsá-las. Estava fraco. Fraco e perdido.
Em um dia sem nenhum significado especial - como todos os dias que haviam se passado -, ele recebeu uma visita inesperada: a brisa. Ela veio mansa, discreta. Soprou com delicadeza, disse um "olá" suave e partiu. Mas houvera ocorrido algo naquela visita que chamou a atenção do moço: ao soprar a brisa, a folha sofrera um pequeno deslocamento, fora levemente arrastada. O moço ao vê-la tão indefesa diante de algo frágil como a brisa, notou então que a folha era incontavelmente mais fraca que ele. Notou que era tolice deixar ser controlado por algo inferior. A folha, o rascunho, a lembrança, eram minúsculos comparados a ele. Como ele pôde levar tanto tempo para despertar?
Levantou-se, tirou uma caneta do bolso esquerdo da calça, tomou a folha e fez um novo rabisco.
"Deixe-se levar pela brisa, mas não espere por mim. Posso ser fraco, mas ainda assim sou forte o bastante para desprender-me de ti".
Foi-se.