sexta-feira, 5 de outubro de 2012

acústico

Desperta o sol de seu descanso diário e com ele vem a música consequente de incansáveis elementos naturais que resumem sua existência em rechear o universo de sons.
Tudo o que se conhece é participante da música, e o que não se conhece também. A vida é música. Porém, poucos são os espectadores atentos a esse espetáculo eterno, e uma minoria quase imperceptível equivale àqueles que tentam decifrá-lo. Os instrumentos que o compõe são incontáveis e a variedade sonora é perturbadora. A diversidade torna-o ainda mais atraente.
Em uma madrugada desprovida de peculiaridade, alguém decidiu que viveria para entender o que a música queria dizer. Preparou os ouvidos, educou a imaginação, estocou concentração. Classificou cada instrumento, decifrou cada acorde, apreciou cada melodia. Encantou-se com a harmonia, sentiu-se parte da música. Tão familiarizado tornou-se com os sons que logo já era capaz de individualizá-los e criar sua própria melodia a partir do que seu censo harmônico lhe havia ensinado.
Foi então que, em um dia de céu claro e acolhedor, o alguém descobriu o acústico. Combinou melodicamente os timbres e percebeu algo muito além do que lhe ocorrera imaginar. Curiosamente, isso se deu em ocasião de devaneios, a única coisa capaz de dividir a atenção do alguém com a música. Creio que foram eles os principais responsáveis pela descoberta, visto que, no dia em questão, eles tratavam de assuntos significativamente sonoros.
O alguém descobriu no acústico a identidade da suavidade, a origem de todo o resto, a combinação perfeita de toda a espécie de som: encontrou-se.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

por uma brisa que desperte

Era noite de sexta-feira. Chuva, nuvens, cinza. O moço dos olhos cor-de-carvão tinha os mesmos fixos na folha de papel rabiscada sobre o chão. Quem visse a cena imploraria aos deuses para que não permitisse a presença de qualquer combustível próximo àqueles olhos. Acredite, os olhos realmente tinham cor-de-carvão.
Mas não havia mais ninguém ali além do moço, dos olhos, da folha.
E a ausência de outro alguém era justamente a causa de tudo aquilo.
A folha, apesar de ser o de aparência mais insignificante, era o que prendia o moço ali. Era a lembrança do alguém ausente. Uma espécie de rascunho, talvez. Era a explicação - mesmo que não o motivo. O conteúdo da folha não era mais importante que sua existência. Ela estava lá porque o alguém não estava.
O moço não queria que a folha estivesse presente, muito menos queria ele estar, mas ela era a única coisa que ele tinha, e ele não era capaz de deixá-la.
Passaram-se horas, dias, semanas. O moço ainda estava lá. Ainda a focar a folha rabiscada. Por várias vezes algumas lágrimas vieram lhe fazer companhia. Durante as primeiras visitas ele se manteve resistente, orgulhoso e rude. Mal as lágrimas chegavam, ele as ia empurrando, expulsando-as. Depois de algumas semanas, ele começou a aceitar a companhia. Aliás, acho que, na verdade, ele não tinha mais forças para expulsá-las. Estava fraco. Fraco e perdido.
Em um dia sem nenhum significado especial - como todos os dias que haviam se passado -, ele recebeu uma visita inesperada: a brisa. Ela veio mansa, discreta. Soprou com delicadeza, disse um "olá" suave e partiu. Mas houvera ocorrido algo naquela visita que chamou a atenção do moço: ao soprar a brisa, a folha sofrera um pequeno deslocamento, fora levemente arrastada. O moço ao vê-la tão indefesa diante de algo frágil como a brisa, notou então que a folha era incontavelmente mais fraca que ele. Notou que era tolice deixar ser controlado por algo inferior. A folha, o rascunho, a lembrança, eram minúsculos comparados a ele. Como ele pôde levar tanto tempo para despertar?
Levantou-se, tirou uma caneta do bolso esquerdo da calça, tomou a folha e fez um novo rabisco.
"Deixe-se levar pela brisa, mas não espere por mim. Posso ser fraco, mas ainda assim sou forte o bastante para desprender-me de ti".
Foi-se.

terça-feira, 1 de maio de 2012

infinito


(Infinito: s. m. O que a razão humana não pode alcançar.)

_ Meu nobre cavalheiro, é você?
O “sim” veio estampado em um sorriso suave e onírico no belo rosto do rapaz ao deixar o livro escapar por entre os dedos e virar-se para ver sua donzela. A consequência desse ato foi um forte, aconchegante e longo abraço.
Era o início de uma tarde aparentemente qualquer, e o jovem a esperava em uma livraria, enquanto tentava distrair-se com os livros – a escolha do local fora de bom gosto, e uma sugestão de ambos.
Havia algo gigante entre eles.
Passaram toda a tarde dentro daquela livraria. Foi lá que compartilharam seus interesses comuns, e os que não eram comuns assim tornaram-se. Ele pegou seu livro predileto, e pediu para lê-lo a ela. Ela aceitou, obviamente. Não havia nada que ela gostasse mais do que ouvi-lo descrevendo seus livros: as palavras doces, os sorrisos, o olhar distante e apaixonado. Ela o amava. Tudo nele fazia com que ela se sentisse bem. Quando se conheceram - em uma situação quase casual – ela se encantou com sua singularidade. Ele era um rapaz nobre, doce, inteligente, adorável. Ele era especial, e ela não tardou a notar.
Sentaram-se em um pequeno banco de madeira envernizado, em um canto da livraria, um de frente para o outro, e ele iniciou a leitura. As palavras chegavam como um assobio suave aos ouvidos dela. Lágrimas percorreram seu rosto, constrangidas. Ela nunca houvera sentido felicidade tão grande, muito menos ele. Sentiam uma satisfação incomum.
Havia algo assustadoramente grande entre eles.
Ela tocou os lábios do seu cavalheiro, e sussurrou:
_ Eu poderia ouvir-te por toda a vida.
Ele, após alguns segundos, respondeu:
_ Eu poderia amar-te até mesmo após a morte.
Realmente havia algo entre eles. E esse algo não era grande, nem gigante, nem enorme. Esse algo era amor. E era infinito.

sábado, 21 de abril de 2012

mi, si, dó sustenido menor, lá

Ele deita-se na cama. Mal consegue mover-se. Está cansado, machucado, importunado pelas preocupações. Seu violão chora, num canto do quarto, sozinho. Sua esperança também está a chorar, num cantinho vazio do coração. Um cantinho que, apesar de inabitado há muito tempo, encontra-se extremamente bem organizado, como quem aguarda ansiosamente um hospede.
Talvez por compaixão, ele resolve consolar seu eterno companheiro violão. Toca um mi abafado. Suas mãos tremem, não tem força suficiente para tocar os acordes com firmeza. Segue com um si, dó sustenido menor, lá. Sua sequência de notas favorita.
Uma lágrima escorre. Ele enxuga-a como se houvesse mais alguém observando-o. Além do violão, é claro. Mas o violão também chora, portanto não havia motivos para constrangimento. Entretanto, ele enxerga mais alguém naquele quarto escuro. Uma moça está sentada na poltrona em frente a cama. Encarando-o todo o tempo. Uma moça triste. De olhos cansados de pedir e não receber. Olhos desconfiados. Mas ele deseja esses olhos. Por um simples motivo: os olhos também o desejam.
A distância entre os dois é ridiculamente pequena. Dois ou três passos unem um ao outro. Ele já tentou caminhar de encontro a ela, porém, sem êxito algum. Ela, de igual forma, tentou inúmera vezes alcançá-lo, também sem sucesso. Desde então, ele jaz naquela cama. Inconsolável. E ela jaz naquela poltrona. Frustrada.
Ela chora. Por não conseguir ir até ele e por achar que ele não a quer. Chora porque chora. O mi abafado que canta o violão chorão vem acompanhado de uma esperança. Ela pode ouvi-lo, o que cria uma ilusão de uma distância inexistente. Ela pode vê-lo, o que causa sensação de proximidade. Ela não pode tocá-lo, o que lhe perturba. Ela não pode senti-lo, o que lhe esfaqueia.
Mal sabem eles que não são passos ou força física que os unirão. Mal sabem eles que já estão unidos. Mal sabem eles.

maior dom de todos

Uma cena extremamente comum: Quatro da madrugada. Silêncio absoluto em uma cidadezinha pacata do interior. Mal se ouvem os grilos. Todas as luzes encontram-se apagadas, menos uma. Uma jovem moradora de um dos bairros mais afastados ainda não dorme. Muito pelo contrário, está de olhos bem abertos, atentos e dispostos. Olhos que percorrem quilômetros de folhas em uma só noite.
Gosto desses olhos. Eles transmitem segurança. Gosto mais ainda da dona dos olhos. Tão doce, tão amável. Não há quem não se encante.
Logo cedo, a doce jovem levanta-se com um único intuito: observar o céu. Ela adora o céu. Para ela, não existem as 7 Maravilhas do Mundo, existe apenas o céu: A Maior Maravilha de Todas. Azul claro e limpo, salpicado de nuvens, nublado, estrelado, negro... Não importa. Sempre está incomparavelmente lindo.

Todas as manhãs, tardes e um pouco antes de ir para o quarto, ela sai ao encontro do amado. Vez ou outra, carrega um violão consigo, e juntos, entoam uma canção enquanto o Sol se põe esplendorosamente. Tamanha é a beleza dessa cena. Confesso que já me permiti algumas lágrimas.
Um dia após uma enorme tempestade que assustou toda a população, a moça saiu para fazer o que sempre fez, por volta das seis da tarde. Dessa vez, não foi acompanhada de um violão, e sim, de papel de caneta. Escreveu:
"O céu está de um azul maravilhoso. Indescritível. As árvores realizam uma linda dança, bailam suavemente, sendo conduzidas por um vento um pouco veloz. E tal paisagem unida ao histórico de chuvas fortes que tem ocorrido recentemente, geram o medo de uma nova e destruidora tempestade.
"Mesmo que tal coisa seja de encher meus olhos, há uma maioria amedrontada. Provavelmente, esse medo seja embasado em perdas. Perdas sofridas, perdas presenciadas. Mas com esse medo de perder acabam perdendo o mais importante. Perdem os ingressos para esse espetáculo, que embora seja gratuito, requer a renúncia de algumas coisas que talvez pareçam mais prazerosas.
"O grande mistério está em enxergar beleza onde outros enxergam risco. Saber apreciar. Não temer a perda de bens, temer a perda de oportunidades. Coisas ruins acontecem o tempo todo e certamente estão acontecendo agora. É inevitável. Pois então, para quê se preocupar?
"Encarar tragédias como normalidades é um dom. Encontrar beleza nas tragédias é o maior dom de todos."
Nessas mesma noite, como de praxe, a jovem permanece acordada até altas horas. Chove incansavelmente. Venta assombrosamente. Da última vez que isso aconteceu, casas foram destelhadas e algumas chegaram a desabar. Mas ela não se importa. Está entretida com a beleza de seus livros. Até que a estrutura de sua casa não suporta a violência da natureza.
Lá se foi o habitat do maior dom de todos.
Nunca houvera noite de céu tão estrelado naquela cidade como houve na noite em que a amável moça partiu. Desde então, nunca mais as estrelas foram vistas pelos moradores. Dizem que se foram junto à jovem, pois não encontraram quem soubesse amá-las como um dia ela amou.

mesmo sol?

Uma tarde comum de outono. O Sol brilha lindamente em um céu cinza.
Na área pobre da cidade, criança suja brinca de bola na rua. Sorriso estampado em um rosto abatido pela fome. Estômago roncando. Coração acelerado. Alegria.
Na área rica, garoto mimado joga controle de videogame na parede, reclamando de não ter o jogo que queria. Lágrimas escorrendo em rosto saudável. Estômago cheio. Coração lento. Tristeza.
Mamãe convida para o jantar.
Meu pobre menino se despede dos amigos e entra saltitante em casa. Na mesa, um prato de sopa de legumes o espera. Ele devora-o. Beija a mãe no rosto. “Eu te amo. E obrigado pelo jantar, estava ótimo”.
O pequeno mimado desce as escadas, e em passos rasos, encontra a família sentada na mesa. Mesa farta. Come um pouco de nada. Sempre com o pescoço curvado. Sequer ergue os olhos quando o pai lhe pergunta como foi seu dia. “Normal”.
Anoitece.
A criança antes suja, agora tomou um rápido banho, mas o suficiente para se limpar. Veste o pijama rasgado e deita-se na cama magra. Fecha os olhos e dorme quase que instantaneamente. Sono tranquilo.
Banho demorado na banheira do próprio quarto. Cama de casal, enorme. Olhos esbugalhados. Vencido pelo cansaço, finalmente dorme. Sono inquieto.
O Sol nasceu igual para ambos. Um soube apreciar. O outro? O outro sequer notou-o.

um sorriso hipnótico

Céu azul-petróleo. Estonteante. O ponteiro do relógio pendurado na parede da sala de estar da casa mais próxima está passando por momentos difíceis: Não sabe se casa-se com senhorita Sete, ou se foge com uma rapariga de nome Seis. Ele isolou-se entre elas para chorar. Pobrezinho. Não vamos perturbá-lo.
Está vendo aquela moça? Céus, de onde haverá surgido tão doce beleza? Como não pode vê-la? Procure direito. Não é tão difícil notá-la. Veja! Veja aquela pele clara, tão clara que aparenta brilhar. Olhe esses fios caramelo caindo sobre seus ombros largos cobertos por uma lã cinza. Uma lã cinza extremamente bem costurada, aliás. Só pode ter sido feita à mão, exclusivamente para ela. Afinal, lhe cai tão bem, não é mesmo? Que olhos magníficos. Não são verdes, nem azuis, mas se fossem, não seriam tão belos quanto essas duas estrelas vermelhas estampadas nesse rosto delicado.
Não me diga que ainda não a vê? Mas como pode ser possível? Ela está se virando. Sim, moça, vire-se! Deixe-me ver com mais clareza teu rosto! O que está havendo? Isso são lágrimas? Minha moça está chorando? Oh, não! Não chore!

Assim, de perto, ela é tão bela quanto imaginei ser. Já se acalmou. Até sorri por entre os lábios. Um sorriso adorável. Um sorriso hipnótico. Um sorriso malicioso. Um sorriso assustador. Não, espere, agora não se parece mais um sorriso. Agora ela não se parece mais com a minha doce e bela donzela, aquela que avistei há alguns minutos. Deve ter se entristecido novamente. Mas sua feição não é a de alguém triste. É quase assustadora. Assustadoramente bela. Sim, sua beleza parece estar retornando. Porém, não é mais prazerosa de observar. Há algo errado. Por que está me olhando dessa forma, senhorita? Sente-se bem? Espere! Está tentando me sufocar? Por quê? Fiz algo que lhe desagradou? Se fiz, diga-me. Pare! Solte-me, por favor! Não consigo respirar.
_ Adeus, tolo! Ah, desculpe-me, não me apresentei. Chamo-me Ilusão, mas costumam referir-se a mim como Paixão.

_ Sim, sim! Agora posso vê-la! É realmente bela. Mas está chorando. O que houve, senhorita?

muito prazer

Há meses tento resistir à tentação de criar um blog. Como puderam perceber, não fui forte o suficiente.
Cadernos, papéis e canetas não têm sido o bastante para mim. Não conseguem suprir minha sede de brincar, brincar com as palavras. Espero que esse blog a supra. Caso contrário, não tenho mais para onde fugir.

Muito prazer, binários. Sejam bem-vindos ao meu playground particular.