sábado, 21 de abril de 2012

maior dom de todos

Uma cena extremamente comum: Quatro da madrugada. Silêncio absoluto em uma cidadezinha pacata do interior. Mal se ouvem os grilos. Todas as luzes encontram-se apagadas, menos uma. Uma jovem moradora de um dos bairros mais afastados ainda não dorme. Muito pelo contrário, está de olhos bem abertos, atentos e dispostos. Olhos que percorrem quilômetros de folhas em uma só noite.
Gosto desses olhos. Eles transmitem segurança. Gosto mais ainda da dona dos olhos. Tão doce, tão amável. Não há quem não se encante.
Logo cedo, a doce jovem levanta-se com um único intuito: observar o céu. Ela adora o céu. Para ela, não existem as 7 Maravilhas do Mundo, existe apenas o céu: A Maior Maravilha de Todas. Azul claro e limpo, salpicado de nuvens, nublado, estrelado, negro... Não importa. Sempre está incomparavelmente lindo.

Todas as manhãs, tardes e um pouco antes de ir para o quarto, ela sai ao encontro do amado. Vez ou outra, carrega um violão consigo, e juntos, entoam uma canção enquanto o Sol se põe esplendorosamente. Tamanha é a beleza dessa cena. Confesso que já me permiti algumas lágrimas.
Um dia após uma enorme tempestade que assustou toda a população, a moça saiu para fazer o que sempre fez, por volta das seis da tarde. Dessa vez, não foi acompanhada de um violão, e sim, de papel de caneta. Escreveu:
"O céu está de um azul maravilhoso. Indescritível. As árvores realizam uma linda dança, bailam suavemente, sendo conduzidas por um vento um pouco veloz. E tal paisagem unida ao histórico de chuvas fortes que tem ocorrido recentemente, geram o medo de uma nova e destruidora tempestade.
"Mesmo que tal coisa seja de encher meus olhos, há uma maioria amedrontada. Provavelmente, esse medo seja embasado em perdas. Perdas sofridas, perdas presenciadas. Mas com esse medo de perder acabam perdendo o mais importante. Perdem os ingressos para esse espetáculo, que embora seja gratuito, requer a renúncia de algumas coisas que talvez pareçam mais prazerosas.
"O grande mistério está em enxergar beleza onde outros enxergam risco. Saber apreciar. Não temer a perda de bens, temer a perda de oportunidades. Coisas ruins acontecem o tempo todo e certamente estão acontecendo agora. É inevitável. Pois então, para quê se preocupar?
"Encarar tragédias como normalidades é um dom. Encontrar beleza nas tragédias é o maior dom de todos."
Nessas mesma noite, como de praxe, a jovem permanece acordada até altas horas. Chove incansavelmente. Venta assombrosamente. Da última vez que isso aconteceu, casas foram destelhadas e algumas chegaram a desabar. Mas ela não se importa. Está entretida com a beleza de seus livros. Até que a estrutura de sua casa não suporta a violência da natureza.
Lá se foi o habitat do maior dom de todos.
Nunca houvera noite de céu tão estrelado naquela cidade como houve na noite em que a amável moça partiu. Desde então, nunca mais as estrelas foram vistas pelos moradores. Dizem que se foram junto à jovem, pois não encontraram quem soubesse amá-las como um dia ela amou.

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