Ele deita-se na cama. Mal consegue mover-se. Está cansado, machucado, importunado pelas preocupações. Seu violão chora, num canto do quarto, sozinho. Sua esperança também está a chorar, num cantinho vazio do coração. Um cantinho que, apesar de inabitado há muito tempo, encontra-se extremamente bem organizado, como quem aguarda ansiosamente um hospede.
Talvez por compaixão, ele resolve consolar seu eterno companheiro violão. Toca um mi abafado. Suas mãos tremem, não tem força suficiente para tocar os acordes com firmeza. Segue com um si, dó sustenido menor, lá. Sua sequência de notas favorita.
Uma lágrima escorre. Ele enxuga-a como se houvesse mais alguém observando-o. Além do violão, é claro. Mas o violão também chora, portanto não havia motivos para constrangimento. Entretanto, ele enxerga mais alguém naquele quarto escuro. Uma moça está sentada na poltrona em frente a cama. Encarando-o todo o tempo. Uma moça triste. De olhos cansados de pedir e não receber. Olhos desconfiados. Mas ele deseja esses olhos. Por um simples motivo: os olhos também o desejam.
A distância entre os dois é ridiculamente pequena. Dois ou três passos unem um ao outro. Ele já tentou caminhar de encontro a ela, porém, sem êxito algum. Ela, de igual forma, tentou inúmera vezes alcançá-lo, também sem sucesso. Desde então, ele jaz naquela cama. Inconsolável. E ela jaz naquela poltrona. Frustrada.
Ela chora. Por não conseguir ir até ele e por achar que ele não a quer. Chora porque chora. O mi abafado que canta o violão chorão vem acompanhado de uma esperança. Ela pode ouvi-lo, o que cria uma ilusão de uma distância inexistente. Ela pode vê-lo, o que causa sensação de proximidade. Ela não pode tocá-lo, o que lhe perturba. Ela não pode senti-lo, o que lhe esfaqueia.
Mal sabem eles que não são passos ou força física que os unirão. Mal sabem eles que já estão unidos. Mal sabem eles.
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