Ele deita-se na cama. Mal consegue mover-se. Está cansado, machucado, importunado pelas preocupações. Seu violão chora, num canto do quarto, sozinho. Sua esperança também está a chorar, num cantinho vazio do coração. Um cantinho que, apesar de inabitado há muito tempo, encontra-se extremamente bem organizado, como quem aguarda ansiosamente um hospede.
Talvez por compaixão, ele resolve consolar seu eterno companheiro violão. Toca um mi abafado. Suas mãos tremem, não tem força suficiente para tocar os acordes com firmeza. Segue com um si, dó sustenido menor, lá. Sua sequência de notas favorita.
Uma lágrima escorre. Ele enxuga-a como se houvesse mais alguém observando-o. Além do violão, é claro. Mas o violão também chora, portanto não havia motivos para constrangimento. Entretanto, ele enxerga mais alguém naquele quarto escuro. Uma moça está sentada na poltrona em frente a cama. Encarando-o todo o tempo. Uma moça triste. De olhos cansados de pedir e não receber. Olhos desconfiados. Mas ele deseja esses olhos. Por um simples motivo: os olhos também o desejam.
A distância entre os dois é ridiculamente pequena. Dois ou três passos unem um ao outro. Ele já tentou caminhar de encontro a ela, porém, sem êxito algum. Ela, de igual forma, tentou inúmera vezes alcançá-lo, também sem sucesso. Desde então, ele jaz naquela cama. Inconsolável. E ela jaz naquela poltrona. Frustrada.
Ela chora. Por não conseguir ir até ele e por achar que ele não a quer. Chora porque chora. O mi abafado que canta o violão chorão vem acompanhado de uma esperança. Ela pode ouvi-lo, o que cria uma ilusão de uma distância inexistente. Ela pode vê-lo, o que causa sensação de proximidade. Ela não pode tocá-lo, o que lhe perturba. Ela não pode senti-lo, o que lhe esfaqueia.
Mal sabem eles que não são passos ou força física que os unirão. Mal sabem eles que já estão unidos. Mal sabem eles.
sábado, 21 de abril de 2012
maior dom de todos
Uma cena extremamente comum: Quatro da madrugada. Silêncio absoluto em uma cidadezinha pacata do interior. Mal se ouvem os grilos. Todas as luzes encontram-se apagadas, menos uma. Uma jovem moradora de um dos bairros mais afastados ainda não dorme. Muito pelo contrário, está de olhos bem abertos, atentos e dispostos. Olhos que percorrem quilômetros de folhas em uma só noite.
Gosto desses olhos. Eles transmitem segurança. Gosto mais ainda da dona dos olhos. Tão doce, tão amável. Não há quem não se encante.
Logo cedo, a doce jovem levanta-se com um único intuito: observar o céu. Ela adora o céu. Para ela, não existem as 7 Maravilhas do Mundo, existe apenas o céu: A Maior Maravilha de Todas. Azul claro e limpo, salpicado de nuvens, nublado, estrelado, negro... Não importa. Sempre está incomparavelmente lindo.
Todas as manhãs, tardes e um pouco antes de ir para o quarto, ela sai ao encontro do amado. Vez ou outra, carrega um violão consigo, e juntos, entoam uma canção enquanto o Sol se põe esplendorosamente. Tamanha é a beleza dessa cena. Confesso que já me permiti algumas lágrimas.
Um dia após uma enorme tempestade que assustou toda a população, a moça saiu para fazer o que sempre fez, por volta das seis da tarde. Dessa vez, não foi acompanhada de um violão, e sim, de papel de caneta. Escreveu:
"O céu está de um azul maravilhoso. Indescritível. As árvores realizam uma linda dança, bailam suavemente, sendo conduzidas por um vento um pouco veloz. E tal paisagem unida ao histórico de chuvas fortes que tem ocorrido recentemente, geram o medo de uma nova e destruidora tempestade.
"Mesmo que tal coisa seja de encher meus olhos, há uma maioria amedrontada. Provavelmente, esse medo seja embasado em perdas. Perdas sofridas, perdas presenciadas. Mas com esse medo de perder acabam perdendo o mais importante. Perdem os ingressos para esse espetáculo, que embora seja gratuito, requer a renúncia de algumas coisas que talvez pareçam mais prazerosas.
"O grande mistério está em enxergar beleza onde outros enxergam risco. Saber apreciar. Não temer a perda de bens, temer a perda de oportunidades. Coisas ruins acontecem o tempo todo e certamente estão acontecendo agora. É inevitável. Pois então, para quê se preocupar?
"Encarar tragédias como normalidades é um dom. Encontrar beleza nas tragédias é o maior dom de todos."
Nessas mesma noite, como de praxe, a jovem permanece acordada até altas horas. Chove incansavelmente. Venta assombrosamente. Da última vez que isso aconteceu, casas foram destelhadas e algumas chegaram a desabar. Mas ela não se importa. Está entretida com a beleza de seus livros. Até que a estrutura de sua casa não suporta a violência da natureza.
Lá se foi o habitat do maior dom de todos.
Nunca houvera noite de céu tão estrelado naquela cidade como houve na noite em que a amável moça partiu. Desde então, nunca mais as estrelas foram vistas pelos moradores. Dizem que se foram junto à jovem, pois não encontraram quem soubesse amá-las como um dia ela amou.
Gosto desses olhos. Eles transmitem segurança. Gosto mais ainda da dona dos olhos. Tão doce, tão amável. Não há quem não se encante.
Logo cedo, a doce jovem levanta-se com um único intuito: observar o céu. Ela adora o céu. Para ela, não existem as 7 Maravilhas do Mundo, existe apenas o céu: A Maior Maravilha de Todas. Azul claro e limpo, salpicado de nuvens, nublado, estrelado, negro... Não importa. Sempre está incomparavelmente lindo.
Todas as manhãs, tardes e um pouco antes de ir para o quarto, ela sai ao encontro do amado. Vez ou outra, carrega um violão consigo, e juntos, entoam uma canção enquanto o Sol se põe esplendorosamente. Tamanha é a beleza dessa cena. Confesso que já me permiti algumas lágrimas.
Um dia após uma enorme tempestade que assustou toda a população, a moça saiu para fazer o que sempre fez, por volta das seis da tarde. Dessa vez, não foi acompanhada de um violão, e sim, de papel de caneta. Escreveu:
"O céu está de um azul maravilhoso. Indescritível. As árvores realizam uma linda dança, bailam suavemente, sendo conduzidas por um vento um pouco veloz. E tal paisagem unida ao histórico de chuvas fortes que tem ocorrido recentemente, geram o medo de uma nova e destruidora tempestade.
"Mesmo que tal coisa seja de encher meus olhos, há uma maioria amedrontada. Provavelmente, esse medo seja embasado em perdas. Perdas sofridas, perdas presenciadas. Mas com esse medo de perder acabam perdendo o mais importante. Perdem os ingressos para esse espetáculo, que embora seja gratuito, requer a renúncia de algumas coisas que talvez pareçam mais prazerosas.
"O grande mistério está em enxergar beleza onde outros enxergam risco. Saber apreciar. Não temer a perda de bens, temer a perda de oportunidades. Coisas ruins acontecem o tempo todo e certamente estão acontecendo agora. É inevitável. Pois então, para quê se preocupar?
"Encarar tragédias como normalidades é um dom. Encontrar beleza nas tragédias é o maior dom de todos."
Nessas mesma noite, como de praxe, a jovem permanece acordada até altas horas. Chove incansavelmente. Venta assombrosamente. Da última vez que isso aconteceu, casas foram destelhadas e algumas chegaram a desabar. Mas ela não se importa. Está entretida com a beleza de seus livros. Até que a estrutura de sua casa não suporta a violência da natureza.
Lá se foi o habitat do maior dom de todos.
Nunca houvera noite de céu tão estrelado naquela cidade como houve na noite em que a amável moça partiu. Desde então, nunca mais as estrelas foram vistas pelos moradores. Dizem que se foram junto à jovem, pois não encontraram quem soubesse amá-las como um dia ela amou.
mesmo sol?
Uma tarde comum de outono. O Sol brilha lindamente em um céu cinza.
Na área pobre da cidade, criança suja brinca de bola na rua. Sorriso estampado em um rosto abatido pela fome. Estômago roncando. Coração acelerado. Alegria.
Na área rica, garoto mimado joga controle de videogame na parede, reclamando de não ter o jogo que queria. Lágrimas escorrendo em rosto saudável. Estômago cheio. Coração lento. Tristeza.
Mamãe convida para o jantar.
Meu pobre menino se despede dos amigos e entra saltitante em casa. Na mesa, um prato de sopa de legumes o espera. Ele devora-o. Beija a mãe no rosto. “Eu te amo. E obrigado pelo jantar, estava ótimo”.
O pequeno mimado desce as escadas, e em passos rasos, encontra a família sentada na mesa. Mesa farta. Come um pouco de nada. Sempre com o pescoço curvado. Sequer ergue os olhos quando o pai lhe pergunta como foi seu dia. “Normal”.
Anoitece.
A criança antes suja, agora tomou um rápido banho, mas o suficiente para se limpar. Veste o pijama rasgado e deita-se na cama magra. Fecha os olhos e dorme quase que instantaneamente. Sono tranquilo.
Banho demorado na banheira do próprio quarto. Cama de casal, enorme. Olhos esbugalhados. Vencido pelo cansaço, finalmente dorme. Sono inquieto.
O Sol nasceu igual para ambos. Um soube apreciar. O outro? O outro sequer notou-o.
Na área pobre da cidade, criança suja brinca de bola na rua. Sorriso estampado em um rosto abatido pela fome. Estômago roncando. Coração acelerado. Alegria.
Na área rica, garoto mimado joga controle de videogame na parede, reclamando de não ter o jogo que queria. Lágrimas escorrendo em rosto saudável. Estômago cheio. Coração lento. Tristeza.
Mamãe convida para o jantar.
Meu pobre menino se despede dos amigos e entra saltitante em casa. Na mesa, um prato de sopa de legumes o espera. Ele devora-o. Beija a mãe no rosto. “Eu te amo. E obrigado pelo jantar, estava ótimo”.
O pequeno mimado desce as escadas, e em passos rasos, encontra a família sentada na mesa. Mesa farta. Come um pouco de nada. Sempre com o pescoço curvado. Sequer ergue os olhos quando o pai lhe pergunta como foi seu dia. “Normal”.
Anoitece.
A criança antes suja, agora tomou um rápido banho, mas o suficiente para se limpar. Veste o pijama rasgado e deita-se na cama magra. Fecha os olhos e dorme quase que instantaneamente. Sono tranquilo.
Banho demorado na banheira do próprio quarto. Cama de casal, enorme. Olhos esbugalhados. Vencido pelo cansaço, finalmente dorme. Sono inquieto.
O Sol nasceu igual para ambos. Um soube apreciar. O outro? O outro sequer notou-o.
um sorriso hipnótico
Céu azul-petróleo. Estonteante. O ponteiro do relógio pendurado na parede da sala de estar da casa mais próxima está passando por momentos difíceis: Não sabe se casa-se com senhorita Sete, ou se foge com uma rapariga de nome Seis. Ele isolou-se entre elas para chorar. Pobrezinho. Não vamos perturbá-lo.
Está vendo aquela moça? Céus, de onde haverá surgido tão doce beleza? Como não pode vê-la? Procure direito. Não é tão difícil notá-la. Veja! Veja aquela pele clara, tão clara que aparenta brilhar. Olhe esses fios caramelo caindo sobre seus ombros largos cobertos por uma lã cinza. Uma lã cinza extremamente bem costurada, aliás. Só pode ter sido feita à mão, exclusivamente para ela. Afinal, lhe cai tão bem, não é mesmo? Que olhos magníficos. Não são verdes, nem azuis, mas se fossem, não seriam tão belos quanto essas duas estrelas vermelhas estampadas nesse rosto delicado.
Não me diga que ainda não a vê? Mas como pode ser possível? Ela está se virando. Sim, moça, vire-se! Deixe-me ver com mais clareza teu rosto! O que está havendo? Isso são lágrimas? Minha moça está chorando? Oh, não! Não chore!
Assim, de perto, ela é tão bela quanto imaginei ser. Já se acalmou. Até sorri por entre os lábios. Um sorriso adorável. Um sorriso hipnótico. Um sorriso malicioso. Um sorriso assustador. Não, espere, agora não se parece mais um sorriso. Agora ela não se parece mais com a minha doce e bela donzela, aquela que avistei há alguns minutos. Deve ter se entristecido novamente. Mas sua feição não é a de alguém triste. É quase assustadora. Assustadoramente bela. Sim, sua beleza parece estar retornando. Porém, não é mais prazerosa de observar. Há algo errado. Por que está me olhando dessa forma, senhorita? Sente-se bem? Espere! Está tentando me sufocar? Por quê? Fiz algo que lhe desagradou? Se fiz, diga-me. Pare! Solte-me, por favor! Não consigo respirar.
_ Adeus, tolo! Ah, desculpe-me, não me apresentei. Chamo-me Ilusão, mas costumam referir-se a mim como Paixão.
_ Sim, sim! Agora posso vê-la! É realmente bela. Mas está chorando. O que houve, senhorita?
Está vendo aquela moça? Céus, de onde haverá surgido tão doce beleza? Como não pode vê-la? Procure direito. Não é tão difícil notá-la. Veja! Veja aquela pele clara, tão clara que aparenta brilhar. Olhe esses fios caramelo caindo sobre seus ombros largos cobertos por uma lã cinza. Uma lã cinza extremamente bem costurada, aliás. Só pode ter sido feita à mão, exclusivamente para ela. Afinal, lhe cai tão bem, não é mesmo? Que olhos magníficos. Não são verdes, nem azuis, mas se fossem, não seriam tão belos quanto essas duas estrelas vermelhas estampadas nesse rosto delicado.
Não me diga que ainda não a vê? Mas como pode ser possível? Ela está se virando. Sim, moça, vire-se! Deixe-me ver com mais clareza teu rosto! O que está havendo? Isso são lágrimas? Minha moça está chorando? Oh, não! Não chore!
Assim, de perto, ela é tão bela quanto imaginei ser. Já se acalmou. Até sorri por entre os lábios. Um sorriso adorável. Um sorriso hipnótico. Um sorriso malicioso. Um sorriso assustador. Não, espere, agora não se parece mais um sorriso. Agora ela não se parece mais com a minha doce e bela donzela, aquela que avistei há alguns minutos. Deve ter se entristecido novamente. Mas sua feição não é a de alguém triste. É quase assustadora. Assustadoramente bela. Sim, sua beleza parece estar retornando. Porém, não é mais prazerosa de observar. Há algo errado. Por que está me olhando dessa forma, senhorita? Sente-se bem? Espere! Está tentando me sufocar? Por quê? Fiz algo que lhe desagradou? Se fiz, diga-me. Pare! Solte-me, por favor! Não consigo respirar.
_ Adeus, tolo! Ah, desculpe-me, não me apresentei. Chamo-me Ilusão, mas costumam referir-se a mim como Paixão.
_ Sim, sim! Agora posso vê-la! É realmente bela. Mas está chorando. O que houve, senhorita?
muito prazer
Há meses tento resistir à tentação de criar um blog. Como puderam perceber, não fui forte o suficiente.
Cadernos, papéis e canetas não têm sido o bastante para mim. Não conseguem suprir minha sede de brincar, brincar com as palavras. Espero que esse blog a supra. Caso contrário, não tenho mais para onde fugir.
Muito prazer, binários. Sejam bem-vindos ao meu playground particular.
Cadernos, papéis e canetas não têm sido o bastante para mim. Não conseguem suprir minha sede de brincar, brincar com as palavras. Espero que esse blog a supra. Caso contrário, não tenho mais para onde fugir.
Muito prazer, binários. Sejam bem-vindos ao meu playground particular.
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